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maio 30, 2005

o ROTEIRO, segu(i)ndo Lique e Yardbird

No intervalo de Lique, parou para ver aquela paisagem. E não parou de a olhar. Dylan, o Bob, mesmo ali ao lado, lembrou-lhe outros tempos. Picou e ficou a ouvir, enquanto aproveitou para ficar a conhecer a relação de Yardbird com L.

E voltou a Lique. E voltou a ver. E a ler.
E viu. E leu. E ouviu. E tornou a ouvir ... e a ler.

O mar não era o vermelho. Nem era o mar morto. Lembrou-se de outro mar, o da ilha do museu. O mais completo do mundo, assim diziam.

E prometeu a si próprio que um dia contaria, à Lique e ao Yardbird, em jeito de agradecimento. Aqui, neste mesmo lugar.

E continuou a ouvir. A história não era a da música. Mas foi naquele tempo. Foi por ali, mais ano menos ano.

Recostou-se no sofá e continuou a ouvir o Bob. Mas sempre a mesma música. Sempre a mesma música.

Até que deixou de a ouvir, porque o sono lhe havia apagado os sentidos ... até ao dia seguinte.


Publicado por dono da lua às 10:50 PM | Comentários (4)

maio 27, 2005

murmúrios de lua cheia

vvv1.jpg

É linda, muito linda, mas porque será ... so sad ?

... i changed and unchanged my mind ...


I really must be going (joan armatrading)

Publicado por dono da lua às 09:55 PM | Comentários (6)

maio 22, 2005

a travessia

paserele.jpg

Publicado por dono da lua às 01:20 AM | Comentários (0)

maio 18, 2005

Mudei-me para aqui

Tive azar quando me sentei na lua.

Já havia quem lá estivesse sentado, ainda que em outros bairros.
A verdade é que o Sol ficou cheio de ciúme, e queixou-se às Estrelas.
Estas pressionaram os Planetas, e a Terra entrou em conflito com a Lua.

Mudei-me, de armas e bagagens, para aqui,
de onde continuarei a ouvir música, a ler histórias, a observar o mundo ...

e a contar com a vossa presença ...
e com os vossos comentários, obviamente.

Publicado por dono da lua às 11:16 PM | Comentários (4)

maio 15, 2005

Kanimambo

Todo vestido de preto. Sapatos, calças, camisa e gravata. Todo de preto. O cabelo, ou melhor, uma massa compacta de gel em forma de crista de galo, tornava-o ainda mais alto do que já era. A sua postura era a de quem tem o tecto a roçar-lhe a crista, curvado sobre si mesmo, como que a tentar disfarçar a altura.

A cor era-lhe dada pelo colete vermelho ferrari que vestia. Mas o melhor eram os óculos. Esses sim, arrasavam com qualquer uma. Eram de massa preta e tinham lentes cor de rosa. Assim mesmo, tal e qual, cor de rosa.

Era uma figura indescritível !

Podia ser empregado de mesa, animador de praça, croupier, sei lá. Podia ser imensas coisas. Mas não. Era apenas o vocalista da banda de serviço. Tinha por conta dele os boleros, as românticas e os slows.

A colega dele, também de preto e de saia com racha lateral de alto a baixo, dedicava-se à agitação. xá-xá-xá, samba, salsa e outra latinas.

E foi assim que a noite foi dançando, entre ele e ela, entre boleros e samba, cantados à vez, e tocados à moda antiga, com sax, trompete, piano e tudo o mais que as regras mandam.

A salsa e o samba cansam. Por isso, eles só dançavam quando cantava o cavalheiro de óculos pretos, com lentes cor de rosa. Não tinham combinado isso mas, tacitamente, era isso que queriam.

Quando vinham os boleros, dançavam eles ... e os outros comentavam ... o que não devia valer, pois não era coisa que se fizesse.

Durante o samba, descansavam eles, e comentavam os outros ... o que também não era coisa que se fizesse. Mas conversavam ... e olhavam-se. Conversavam sobre coisas do dia a dia. De pé, junto à pista, falava ele e ouvia ela. Depois era a vez dela. E assim por diante, até regressarem os boleros ...

Agora era a vez de ela falar. Olhavam-se, e ele ouvia-a. E foi aí que percebeu a melodia, acompanhada pela voz do nosso conhecido vocalista.

... obrigado, muchas gracias, merci bien, tudo é kanimambo ...

Sempre tinha gostado daquela canção. E aí estava ela, com o ritmo certo, sem pressas, mesmo a pedir que a dançassem. E ele não resistiu. Pegou-lhe na mão e levantou-a para a pista.

Como nas outras músicas, esta foi eterna. Quatro, cinco minutos ... bastante mais. Tal como diz outra música, deu para lhe ficar a conhecer o cheiro do champô. E do chanel. Só não sabia o número, mas também não importava. O que era preciso é que o cantor não parasse.

'Estão a fechar o pano', sussurrou-lhe ela. Era verdade. A música continuava, mas estava tudo a acabar.

'Estão a tirar-me este morninho, tão morninho' sussurrou-lhe ele.

Sentiu-lhe o sorriso, meio recriminador, meio complacente, mas cheio de ternura.

A noite estava a acabar. Antes de se despedirem, ele sussurrou-lhe o refrão

... obrigado, muchas gracias, merci bien, tudo é kanimambo ...

Publicado por dono da lua às 11:59 PM | Comentários (2)

Tanta qualidade junta

Extremamente bem feita,
bem concebida ... e bem mantida.

De acordo com os requisitos,
nada a comentar.

Brilhante, como nenhuma !

Que

toquem as guitarras da alta,
cantem os pombos da baixa,
dancem as águas do rio e,

por favor,

deixem que a torre abrace o penedo
... de tanta saudade.

Publicado por dono da lua às 11:46 PM | Comentários (0)

O que o silêncio consegue

Aparentemente, os extremos não se tocam,
mas são relevantes.

Seguramente que a simpatia gera empatia,
mas só o sorriso gera cumplicidade

e o silêncio proximidade.

Publicado por dono da lua às 11:45 PM | Comentários (0)

O bispo ... de sorriso irritante

Ele estava tremendamente indeciso. Se não o fizesse, podia comprometer a fase seguinte. A defesa estava boa. As diagonais estavam cobertas. Tinha peões bem colocados.

Mas o bispo preto, do outro lado, parecia que se ria dele. Já há um bom bocado que o incomodava. E a torre estava quieta, mas não era de fiar. Precisava de ganhar tempo, para preparar melhor o ataque.

De facto, tinha de ser. Tudo apontava para que seria uma boa jogada. Movimento do cavalo. E assim foi. Pegou no cavalo e mudou-o.

Estava deitado de bruços, sobre a cama. O tabuleiro no chão. Para levantar os olhos, tinha de levantar a cabeça. Os braços do lado de fora da cama. Não estava lá muito confortável. Mas estava concentrado nas brancas ... e naquele bispo, de sorriso irritante.

Ela tinha-lhe pedido para que a ensinasse a jogar xadrez. E porque não, se ela era simpática ? E não era todos os dias que aparecia alguém com vontade de aprender. E, como se não bastasse, diga-se em abono da verdade, que também não era nada de deitar fora. Como era inteligente, seguramente que aprenderia depressa.

Aqui entre nós, ele não contava que desse luta. Mas deu. Porque ela aprendeu depressa.

A pensar na jogada seguinte, nem se deu conta do que estava a acontecer. Mas, instantaneamente, apercebeu-se que já estavam assim há um bom bocado. Os seus dedos estavam a ser tocados, mas continuou concentrado.

O silêncio era total. Ouvia-se o respirar. Ninguém dizia nada. Só os dedos falavam ... porque se tocavam. Primeiro dois. Depois quatro, seis ... e os dedos continuavam a tocar-se. De mansinho. Ao de leve. Dedo com dedo. Par com par.

E ela não reagia ao movimento do cavalo. Estava deitada de bruços, mas no tapete do chão. Para o ver, tinha de levantar a cabeça.

Ninguém dava o passo seguinte. Nem podia dar. Pelo menos no que a ele dizia respeito, porque naquele momento já não sabia se o bispo lá andava ... nem se o cavalo estava protegido pelo peão. Nem se a rainha era defendida pela torre, ou se estava sem defesas. Verdadeiramente, ele já nem sabia se jogava com as brancas ... ou com as pretas.

Havia chegado a sua vez de aprender !

Publicado por dono da lua às 11:42 PM | Comentários (0)

O centésimo cigarro

Cansado de estar sentado, um amigo meu
foi até ao outro lado da lua
acender o centésimo cigarro.

Gritou de lá que estava escuro que nem breu.
Mas que se viam as estrelas.Todas.
Brilhantes como só elas.

Só que o silêncio e a escuridão,
eram tremendos. Por isso voltou
ao lado de cá. E voltou a sentar-se.

Agora, passa a vida a dizer-me
que não se esquece.
Nem da solidão, nem do silêncio
da escuridão.

Mas também não se cansa de me dizer
que não se esquece das estrelas.
Encantado com elas, havia-se
esquecido do cigarro.

Publicado por dono da lua às 11:31 PM | Comentários (0)

Deus

Disse à amendoeira:
"Irmã, fala-me de Deus!"
E a amendoeira cobriu-se de flores.

Niko Kazantzakis

Publicado por dono da lua às 11:29 PM | Comentários (0)

Sei que foram outros

'Algum dia sereis suficientemente velhos
para começar a ler outra vez contos de fadas ...'
C. S. Lewis

Eu sei que foram outros que lá chegaram primeiro.
Também sei que, durante milhões de anos,
milhões de homens e mulheres a olharam, admiraram, apreciaram e endeusaram.

Mas ela é minha, e só minha,
porque sou eu que lá estou.
Sentado. Do lado de cá da lua.

Publicado por dono da lua às 11:28 PM | Comentários (0)

A gente não faz amigos ...

'Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor,
eis que permite que o objecto dela se divida em outros afectos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!
Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências...
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.
Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não lhes posso dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.
Muitos deles estão lendo esta crónica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.
E às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado.
Se todos eles morrerem, eu desabo!
Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles.
E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem-estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer...
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca venham a saber que são meus amigos!

A gente não faz amigos, reconhece-os.'

(Vinicius de Moraes)

Publicado por dono da lua às 11:27 PM | Comentários (1)

Sentado na lua

Sentado na lua, o indivíduo percebeu como é difícil pescar estrelas em noite de quarto minguante. Bebeu o último trago de whisky, calou a soul que ouvia, suspirou fundo ... e foi ver se conseguia adormecer.

Publicado por dono da lua às 07:44 PM | Comentários (0)